Pneumologia

O marcador de longevidade de que quase ninguém fala

Colesterol, tensão, glicose... e os pulmões? A função pulmonar está associada à longevidade e ao risco cardiovascular, mesmo dentro dos valores normais.

Estetoscópio para avaliação da saúde respiratória

Todos conhecemos os números que costumam definir a nossa saúde: o colesterol, a tensão arterial, a glicose. Medimo-los todos os anos e sabemos o que significa tê-los "bem" ou "mal". Há, no entanto, um número que quase ninguém pede para ver e que a investigação tem associado de forma consistente à longevidade: a função pulmonar.

Um exame de poucos minutos

A espirometria demora poucos minutos e não dói. Pede-se à pessoa que encha bem o peito e sopre com força para um bocal. Um dos valores mais importantes é o FEV1: o volume de ar que os pulmões conseguem expirar no primeiro segundo.

Durante décadas, este número serviu sobretudo para diagnosticar e acompanhar doenças respiratórias, como a asma ou a DPOC. Mas os grandes estudos populacionais contam uma história mais abrangente.

O que dizem os estudos

Mesmo dentro do normal, conta. Num estudo publicado em 2024, com mais de 20 000 adultos seguidos até 20 anos, as pessoas com FEV1 entre 80% e 89% do previsto (um valor considerado normal) tinham cerca do dobro do risco de morrer, em comparação com as que tinham os valores mais altos. A análise teve em conta o tabaco. 1

Em todo o mundo, o mesmo padrão. No estudo PURE, com cerca de 126 000 adultos de 17 países, cada grau de redução do FEV1 associou-se a mais mortalidade, mais doença cardiovascular e mais internamentos por doença respiratória. As reduções ligeiras a moderadas, as mais frequentes, pesavam na mortalidade da população tanto ou mais do que o tabaco. 2

E no coração. Numa análise de oito estudos americanos, com mais de 35 000 pessoas, uma função pulmonar mais baixa, ainda dentro do normal, surgiu como o terceiro fator de risco com mais peso nas mortes por doença coronária, depois da hipertensão e da diabetes. 3

O FEV1 mais do que outros valores. Na coorte latino-americana PLATINO, o FEV1 previu a mortalidade melhor do que outros parâmetros da espirometria. 4

Porque é que os pulmões dizem tanto?

A função pulmonar de um adulto resulta de uma história longa: do desenvolvimento dos pulmões na infância, do valor máximo atingido no início da idade adulta e da rapidez com que declina depois. 5 Ao longo dessa história somam-se o tabaco, a poluição, as infeções, a atividade física e a inflamação. Por isso há investigadores que já a descrevem não só como um exame dos pulmões, mas como um marcador de saúde geral.

Um alerta porque convém ser rigoroso: estes estudos mostram associações, não provam que melhorar o FEV1 aumente, por si só, a esperança de vida. Mas mostram que vale a pena conhecer este número.

Um número que quase ninguém conhece

A espirometria não substitui o colesterol nem a tensão arterial, mas merece estar ao lado deles. Hoje, a maioria dos adultos só a faz quando já tem sintomas. Na população sem queixas, o seu valor continua praticamente desconhecido.

Faz sentido pensar numa espirometria se:

  • Fuma ou fumou.
  • Tem falta de ar, tosse ou pieira, mesmo que ligeiras.
  • Cansa-se mais do que antes a subir escadas ou a caminhar.
  • Teve asma ou infeções respiratórias frequentes na infância.
  • Esteve exposto a poeiras, fumos ou químicos no trabalho.

O que pode fazer

Não fumar, manter-se ativo, proteger-se da poluição e tratar bem a asma ou a rinite são os passos que mais protegem os pulmões. E, da próxima vez que fizer um check-up, pergunte pela sua função pulmonar.

Marcar consulta de Pneumologia na Clínica CARPA, em Coimbra e Viseu

Referências

  1. Cannon MF, et al. Normal lung function and mortality in World Trade Center responders and National Health and Nutrition Examination Survey III participants. Am J Respir Crit Care Med. 2024;209(10):1229–1237. doi:10.1164/rccm.202309-1654OC
  2. Duong M, et al. Mortality and cardiovascular and respiratory morbidity in individuals with impaired FEV1 (PURE): an international, community-based cohort study. Lancet Glob Health. 2019;7(5):e613–e623.
  3. Bhatt SP, et al. Low lung function is associated with high population attributable fraction for cardiovascular mortality. Ann Am Thorac Soc. 2025;22(3). doi:10.1513/AnnalsATS.202407-715OC
  4. Menezes AMB, et al. FEV1 is a better predictor of mortality than FVC: the PLATINO cohort study. PLoS One. 2014;9(10):e109732.
  5. Agustí A, Faner R. Lung function trajectories in health and disease. Lancet Respir Med. 2019;7(4):358–364.

Vídeo